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Hipoglicemia

 Define-se por hipoglicemia a presença de valores de glicose sanguínea abaixo de 45 mg/dL ou abaixo de 50 mg/dL quando se avalia, respectivamente,  soro ou plasma associado a sinais e sintomas característicos.

Os pacientes apresentam manifestações clínicas devidas a liberação de hormônios chamados adrenérgicos (em parte produzidos pela glândula suprarrenal), tais como,  tremores, taquicardia, taquipnéia, palidez da pele, ansiedade e outras devido a liberação de outros hormônios (colinérgicos), tais como: sudorese, fome e parestesias. Os sintomas incluem alteração do nível de consciência, psicomotoras, de comportamento, amnésia, nervosismo, mudança de personalidade, sonolência e até mesmo perda total de consciência que se chama coma.

A maioria dos episódios é imediatamente reversível com estabilização do nível de glicose para valores normais e os raros casos fatais são resultados de arritmias cardíacas.

Embora os sintomas neurogênicos (adrenérgicos e colinérgicos) possam ser muito sugestivos de hipoglicemia, esta requer confirmação pela medida da baixa concentração de glicose no sangue.

A hipoglicemia pode ser classificada em mediada por insulina ou não mediada por insulina que leva em consideração a causa.

Mais de 160 medicamentos estío associados à hipoglicemia. Além da insulina e dos hipoglicemiantes orais, que são os mais comuns, as drogas mais freqüentes são o consumo exagerado de álcool em pessoas que estío em jejum e medicações como as quinolonas, pentamidina, quinina, beta-bloqueadores e os inibidores da conversão de angiotensina usados para o tratamento da hipertensão arterial. A hipoglicemia exógena é resultado do uso inadequado de hipoglicemiantes orais ou insulina, geralmente em pacientes idosos. A clorpropamida é um hipoglicemiante oral ainda utilizado em alguns centros. Seu uso deve ser criterioso tendo em vista sua longa meia vida, sendo esta droga responsável por quadros hipoglicêmicos recidivantes mesmo após 5 a 7 dias de interrupção de seu uso. A hipoglicemia factícia é mais comum naqueles que tem conhecimento sobre hipoglicemiantes e acesso a eles.

No paciente crítico a sepse é causa comum de hipoglicemia. Citocinas inflamatórias inibem a síntese de glicose e com isto esvaziam as reservas de glicose do fígado e dos músculos.

Na desnutrição a hipoglicemia é o resultado da limitação da produção e liberação de glicose do fígado para o sangue. Hipoglicemia pode ser também encontrada na anorexia nervosa.

Devido à depleção aguda do hormônio cortisol (produzido nas glândulas adrenais), a hipoglicemia pode ocorrer em pacientes portadores de inflamação das adrenais de natureza  auto-imune, ou da retirada abrupta de corticóides após seu uso crônico e na adrenalite infecciosa.

A hipoglicemia ocorre em grandes tumores mesenquimais ou de células epiteliais devido à produção de IGF I e IGFII incompletamente processada. Neste caso, a produção endógena de insulina está suprimida.

A hipoglicemia hiperinsulinêmica endógena pode ocorrer pelo aumento de secreção de insulina pela célula beta pancreática. Os insulinomas, usualmente tumores benignos da células beta, são a principal causa de hipoglicemia de jejum. Outra causa endógena é a disfunção da célula beta, conhecida como nesidioblastose.

O tratamento da hipoglicemia na emergência está vinculado ao nível de consciência do paciente. Pacientes que estío alertas, com cognição preservada e com glicemia capilar menor ou igual a 70 mg/dl podem receber o tratamento imediato com a ingestío de 15 a 20 gramas de carboidratos de rápida absorção (na forma de tabletes, sucos, leite ou refeição). Quando a hipoglicemia é acompanhada de diminuição do nível de consciência deve ser administrado pelo menos 25g de glicose 50% intravenoso. Na impossibilidade de um acesso venoso periférico, deve-se considerar a possibilidade de aplicação de 0,5 a 1 mg de glucagon IM ou SC: glucagon é um hormônio que estimula a liberação de glicose pelo fígado.

Na suspeita de intoxicação exógena com drogas, o paciente deve ser monitorado com glicemias capilares freqüentes, aporte intravenoso de glicose por 24 horas ou mais dependendo da meia vida de cada droga.

Na possibilidade de insuficiência adrenal administrar hidrocortisona 100mg IV em bolus seguido de 50 mg a cada 6 horas.

Deve-se ter em mente sempre que mais importante que o tratamento da hipoglicemia é a sua prevenção. As causas precipitantes devem ser imediatamente diagnosticadas e tratadas e medidas preventivas tomadas para evitar novas crises.

Dr. Francisco Estivallet Finamor Junior
Endocrinologista
CRM 80.765
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