Blog

O melhor colesterol será o mais baixo possível?

Nos últimos 20 anos tem surgido diversas publicações que claramente demonstram que a redução do colesterol total no plasma diminui a freqüência de eventos cardiovasculares em praticamente todos indivíduos adultos acima de 40 - 50 anos de idade, principalmente homens. Este benefício tem sido melhor  pelo emprego das estatinas (drogas mais usadas na redução do colesterol) nos casos com elevação do colesterol no plasma, isto é, da fração LDL-colesterol, que é o componente mais relacionado com a aterosclerose. O benefício é claramente maior nos que já apresentam manifestação de doença vascular (coronariopatias), ou ainda são diabéticos, ou hipertensos.

O que não sabíamos até agora era se o benefício cardiovascular seria tanto melhor quanto mais  conseguíssemos reduzir o LDL-C. Neste sentido foi  publicado por CP Cannon no New England J. of Medicine vol 350, março de 2004 (www.nejm.org) investigação em 4162 pacientes de aproximadamente 58 anos de idade, sendo 22% do sexo feminino, com doença coronariana manifesta, que entraram em um programa com duas drogas redutoras do colesterol por 18 a 36 meses. Interessante é que estes casos foram escolhidos por terem colesterol na faixa normal desde o início (aproximadamente entre 158 e 205 mg/dL, correspondentes a LDL-colesterol, respectivamente,  entre 87 e 128mg/dL). A metade deles recebeu diariamente Pravastatina (40mg), capaz de reduzir modestamente o colesterol, enquanto a outra metade recebeu Atorvastatina (80mg), para atingir uma redução mais drástica do colesterol. De fato, com a Pravastatina o LDL-C atingiu em média 95 mg/dL e com a Atorvastatina chegou a 62 mg/dL.

Ao longo de dois anos observou-se que no grupo Atorvastatina ocorreu queda mais acentuada da freqüência de mortes por qualquer causa, de mortes por causa cardiovascular, por infarto do miocárdio e inclusive do número de casos que necessitou de cirurgia de revascularização cardíaca. A incidência total destas complicações acometeu 22,4% dos casos com Atorvastatina e 26,3% dos que tomaram Pravastatina; a diferença entre os dois grupos foi bastante significante estatisticamente.

O recado essencial deste estudo não é que uma droga seja melhor do que a outra, porém, que os resultados obtidos são claramente melhores quanto mais se consegue reduzir o colesterol e, mais importante, que tal benefício é conseguido em pacientes que não tinham colesterol elevado, embora se deva ressaltar que já manifestavam doença coronariana severa.

Resta demonstrar se este benefício se estende a adultos com concentração de colesterol normal no plasma, porém, que não tenham doença coronariana manifesta. Se um dia esta possibilidade vier a ser comprovada, teremos pela frente um problema sério de saúde pública: quanto custará reduzir o colesterol de um número tão elevado de pessoas saudáveis em relação ao tamanho da vantagem auferida?

Prof. Dr Eder C R Quintão
Endocrinologista
CRM 8716

2017 - Todos os direitos reservados.Agência Giga  Agência Giga